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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"Plastic Pellets” nas praias de Santos

Uma das grandes preocupações ambientais atuais está relacionada à poluição marinha. Dentre os vários poluentes que ameaçam este sensível ambiente estão os plásticos, um material em crescente utilização na sociedade moderna e que é extremamente prejudicial ao meio ambiente devido à sua resistência à degradação.
A matéria prima plástica é comercializada em forma de “pellets”, grânulos com cerca de 5 mm de diâmetro, que estão sendo levados em grandes quantidades ao ambiente marinho, devido a perdas nas etapas de produção, transporte e/ou transformação em bens de consumo, pelos rios ou drenagem de águas pluviais, ou ainda diretamente derramados no mar. No ambiente, os pellets podem permanecer flutuando por longos períodos ou vão se acumular em praias arenosas causando impactos ambientais, econômicos e estéticos.
“Plastic Pellets” coletados em Santos. © Prof. Dr. Alexander Turra / IO-USP
“Plastic Pellets” coletados em Santos. © Prof. Dr. Alexander Turra / IO-USP
 
Como no Brasil não há registros sobre a ocorrência destes pellets, desenvolvemos um projeto que se configurou como um estudo básico, porém estratégico, para o entendimento da contaminação do ambiente costeiro. Assim, este projeto utilizou as praias da Enseada de Santos, litoral do Estado de São Paulo, como uma área piloto para se compreender os padrões de distribuição ao longo e ao largo da praia e em profundidade no sedimento. Para amostrar a distribuição dos pellets por profundidade, em uma área onde a abundância era grande, 100 amostras de 0,1m³ (1×1×0.1m)(até 1m; 10 a cada profundidade) de sedimento foram retiradas e colocadas em baldes com água do mar. Os pellets sobrenadantes foram retirados e contados.

Procedimentos de coleta para avaliar a distribuição de pellets por profundidade numa praia da Enseada de Santos (área de 1m² e 30cm de profundidade). © Priscilla Bosa  / IO-USP
 Procedimentos de coleta para avaliar a distribuição de pellets por profundidade numa praia da Enseada de Santos (área de 1m² e 30cm de profundidade). © Priscilla Bosa / IO-USP
 
Para a distribuição ao largo da praia (perpendicular à linha d’água), uma outra área foi dividida em 12 pontos eqüidistantes (a cada 6,5m) desde a área mais alta da praia até o limite da maré alta. Em cada altura, 25 amostras de sedimento de 0.018m³ (diâmetro do trado de 0.1524×1m) foram sorteadas ao longo de uma faixa de 50m, e os pellets separados e contados. Já para a análise da distribuição ao longo da praia a enseada foi dividida em 15 áreas eqüidistantes, cada uma com 3 transectos transversais à linha de deixa da maré, divididos em 10 alturas eqüidistantes (cuja distância variou conforme o tamanho do pós-praia). Em cada altura amostras de 0.036m³ (0.1524×2.0m de profundidade) de sedimento foram coletadas e os pellets contados.
Procedimentos de coleta para avaliar a distribuição ao largo (vertical) de pellets numa praia da Enseada de Santos utilizando uma cavadeira tipo trado de 6’ de diâmetro. © Juliana Teixeira
Procedimentos de coleta para avaliar a distribuição ao largo (vertical) de pellets numa praia da Enseada de Santos utilizando uma cavadeira tipo trado de 6’ de diâmetro. © Juliana Teixeira
 
Com base na dinâmica de deposição dos pellets foi verificado que eles realmente se concentram na porção mais superior do sedimento e ainda na região do pós-praia. As maiores médias foram observadas nos 30cm superiores do sedimento, com cerca de 1.100 pellets por 0,1m3, diminuindo a cada 10cm de profundidade e  finalizando com 32,6 em 0,9-1m. Na primeira altura do pós-praia (0m; região mais próxima à calçada) foi observada uma densidade média de 136 pellets/0.018m3, diminuindo gradativamente nas seguintes até atingir o valor de 0.44 nos 78m. A distribuição ao longo da praia mostrou que os pellets se concentraram nas áreas mais próximas ao Canal de Santos, com uma taxa média de 82 pellets/0.036m3, e chegando à densidade máxima de 139/0.036m3 (4.559 pellets/m³). Destaca-se também o último ponto amostrado, correspondente ao final da enseada de São Vicente, com um aumento considerável na densidade de pellets em relação aos pontos anteriores (cerca de 22/0.036m3).
Os resultados revelam que os pellets devem estar sendo depositados há muito tempo e que a ocorrência em profundidade no sedimento pode ser decorrente de eventos extremos que remobilizaram e depois re-depositaram o sedimento com certa velocidade, aprisionando os pellets. Só eventos dessa magnitude teriam condições de soterrar esses pellets a até 2 metros de profundidade, pois possuem densidades baixas e bóiam na água o mar. A distribuição dos pellets também está relacionada com a circulação da Baía, que apresenta correntes de direção sul e, juntamente com as correntes provenientes do Canal de Santos, depositam os pellets preferencialmente nas primeiras praias (próximas ao canal e ao Porto, possível fonte de emissão de pellets ao ambiente) e ainda na porção final da baía (área 15).
Com estas informações foi possível definir um método de amostragem quantitativo para se comparar diferentes tipos de praia e ainda reunir informações sobre a contaminação deste resíduo sólido na costa paulista. Desta forma, poderá auxiliar o governo local e órgãos responsáveis, além do setor privado relacionado (indústrias de plásticos, por exemplo), a avaliarem os métodos de produção, processamento e transporte dos pellets, e a determinarem medidas consistentes para controlar e prevenir sua perda para o ambiente. Como desdobramento do presente projeto espera-se estruturar uma linha de pesquisa para avaliar os efeitos físicos, químicos e ecológicos dos pellets no ambiente.


Aruanã Bittencourt Manzano e Prof. Dr. Alexander Turra
 Aruanã Bittencourt Manzano, bióloga pela UNESP e Mestre em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo e Prof. Dr. Alexander Turra, biólogo pela Unicamp, Mestre e doutor em ecologia pela Unicamp, docente do Instituto Oceanográfico pela Universidade de São Paulo.
“Plastic Pellets” coletados em Santos. © Prof. Dr. Alexander Turra / IO-USP
“Plastic Pellets” coletados em Santos. © Prof. Dr. Alexander Turra / IO-USP
 
Fonte: Mercado Ético, 18/08

2 comentários:

  1. Devidamente retuitado!

    abçs
    cintia
    ~preservblog~

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  2. Muito interessante o texto!Espero que com a informação muitas pessoas se conscientizem sobre o aspecto ambiental!

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Abs,
Érica Sena
Pensar Eco

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